Diploma no Brasil é tido como sinônimo de sapiência.

Contrário senso, a sapiência sem diploma não é vista como tal.

Certa feita, após participar de um debate, um profissional liberal (sem pós-graduação, frise-se) foi efusivamente elogiado por um membro de uma escola de magistratura que, indiferente ao doutor com doutorado que também fizera uso da palavra no mesmo evento, o convidou para proferir uma palestra em um dos tribunais regionais federais de uma região que não recordo.

Ao saber que o referido era apenas graduado, lamentou e desfez o convite.

Essa polêmica a respeito do pronome de tratamento “doutor”, que tem ocupado muita gente a argumentar, uns a favor e uns contra, a utilização de tal termo somente para quem tem doutorado, atesta a assertiva contida nos primeiro e segundo parágrafo.

Denota que o sujeito que tem tal título acadêmico enxerga com desgosto, quase como se tratasse de uma ofensa pessoal, quando alguém que “não estudou tanto quanto ele para fazer jus ao título” seja tratado como tal.

Não menos vaidoso é o do posicionamento inverso, que em razão da profissão que exerce, exigir, com toda a autoridade moral que seu status profissional permite, ser chamado de tal modo e para tanto, exibe como argumento um decreto da época do Império.

Conheci na infância uma senhora do meu bairro chamada Dona Chica que, coitada, não era dona de nada.

Seu Joca, da mercearia, viúvo e sem filhos, não tinha ninguém que o chamasse de seu.

Desconheço que alguém tivesse se oposto a tratá-los pelos habituais pronomes mediante o argumento de que “Dona” é aquela que possui algo e “Seu” é aquilo que pertence a outrem.

Eu particularmente, quando escuto a palavra “doutor”, não consigo evitar que me venha à mente figuras toscas, como o Doutor Drauzilo Varela e o tal do Doutor Segurança.

Se eu tivesse dedicado boa parte da minha vida à academia, logrando êxito em chegar ao doutorado, quereria, ao fim, receber um título que não me fizesse lembrar os sujeitos mencionados.

Teria que ser um termo que aludisse ao esforço que fiz para obter o título.

Se o doutoramento fosse em direito penal, por exemplo, não me agradaria ser tido por aí como “Doutor em direito penal”.

Teria que ser algo mais phodástico. Chuck Norris, por exemplo.

“Tá vendo aquele cara ali? É o Joselito Müller, ele é Chuck Norris em direito penal”, diriam.

Ainda assim, creio eu que não me importaria em saber que alguém que recebeu o título de Chuck Norris pela academia estava a utilizá-lo.

Já fui imbecil o suficiente para ser vaidoso a tal ponto, mas naquele tempo eu não havia terminado sequer o primário.

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Joselito Müller é um personagem fictício que retrata as notícias do cotidiano. Numa classificação, seria um super-herói defensor dos… Defensor de nada, Joselito Muller é um personagem fictício que faz paródia de figuras públicas em situações cômicas. Nada é neste site é verdade, mas poderia ser. Além do charme, Joselito Müller é um competente jornalista, pioneiro no jornalismo de ficção brasileiro. Foi eleito três vezes consecutivas como um dos maiores filhos da puta da América Latina, além de ter sido indicado para o Pulitzer de reportagem mais escrota em 2013 e 2014.

1 COMMENT

  1. Numa exposição sobre pesquisas realizada no INPA (Instituto de Pesquisas na Amazônia) um americano expunha um projeto e em determinado momento declarou que as pesquisas eram fruto do trabalho de um militar. Alguns da platéia deram sorrisinhos e o palestrante nada entendeu. Depois um pesquisador nosso foi lhe dizer que aqui militares são tidos como ignorantes e incapazes. Ele continuou não entendendo.

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