• Texto publicado na revista FaceBrasil Magazine, publicada em Orlando, na Flórida.
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Chegou no fim da tarde ofegante, ainda que não tenha corrido mais que a distância em que havia estacionado o carro, do outro lado da rua, até o portão do fórum, onde foi barrado pelo guariteiro que, tentando demonstrar educação, advertiu ao doutor que precisaria verificar a documentação caso o motivo da entrada fosse fazer protocolo.

– Só tem papel aqui, homem de Deus, disse o advogado empunhando um calhamaço enquanto fazia menção de ultrapassar o vigilante que obstruía o caminho.

– São ordens, doutor, disse o homem estendendo a mão, na qual o suarento causídico entregou seus documentos.

Enquanto Doutor Palhares, o advogado, tentava debalde abanar com uma das mãos suas adiposas carnes de cinquentão sedentário, o vigilante folheava os documentos por ele trazidos, como se estivesse a analisá-los.

– O doutor vai me desculpar, mas a documentação aqui não vai poder ser recebida, porque faltam dados da qualificação civil do constituinte de Vossa Excelência, disse o funcionário com ares de magistrado.

– Amigo, não estou para brincadeiras. O protocolo encerra em cinco minutos e hoje é meu último dia do prazo, portanto me devolva os papéis e libere a passagem, respondeu impaciente o advogado que a essa altura já havia recuperado parcialmente o fôlego.

O guariteiro pediu um minuto e interfonou para outro setor. Do local em que se encontrava, Palhares notou que o homem informava ao interlocutor o teor de sua petição e fazia questionamentos ininteligíveis.

Não tardou e outro vigilante se fez presente ao local. Demonstrando já saber do que se tratava a situação, pegou os documentos das mãos do primeiro, olhou ligeiramente e balançou a cabeça negativamente.

– Não vai poder ajuizar.

– Mas que porra está acontecendo aqui? Perguntou o advogado impaciente.

– O doutor deve ter conhecimento de que a comarca está fazendo uma força tarefa para dar andamento mais célere nos processos, não é?

– E o que uma coisa tem a ver com a outra, meu camarada?

– Pois bem, o juiz determinou que a triagem começasse já no portão do fórum, para evitar que chegasse até ele pedidos sem cabimento. Isso vai evitar que ele perca tempo tendo que fundamentar pedidos que até nós, vigias, já sabemos que vão ser negados. No caso aqui – apontou para os papéis – falta um dos requisitos exigidos pela lei processual, então estou indeferindo o protocolo e infelizmente não há mais nada o que eu possa fazer, disse as últimas palavras já se virando para retornar para o interior da repartição.

– Isso é sacanagem, não é não? É algum tipo de brincadeira, por acaso? Amigo, o protocolo vai fechar e eu preciso dar entrada na porra dessa petição!

– Olha, falar desse jeito só vai piorar o problema. Isso é desacato e o senhor por ser preso, falou o primeiro guariteiro, que perguntou ao segundo se o que dissera estava correto, recebendo a confirmação com um aceno de cabeça.

Palhares perscrutou o interior do fórum e notou que as luzes internas estavam sendo apagadas. Logo em seguida os serventuários saiam em fila, como se a sirene da escola tivesse soado ao fim da aula.

Olhou o relógio e viu que já havia perdido a hora.

Não conteve a raiva, e antes de receber voz de prisão por “desacato à autoridade”, proferiu contra os guariteiros os impropérios mais sinceros de toda a sua vida.

1 COMMENT

  1. Isso é desacato e o senhor por ser preso … não seria … Isso é desacato e o senhor pode ser preso

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