Eu devo confessar que achei inusitado quando recebi uma ligação de uma mulher que se identificou como Clarice, e me convidou para atuar num vídeo-clipe.

Antes de dizer que não sou ator, perguntei quem tinha dado meu telefone a ela e ela, sem responder, disse que não precisava saber atuar.

Me explicou que buscava voluntários para aparecerem nus, sem mostrar o rosto, de frente, em sequência, enquanto a música tocava.

– Quer dizer que vai ter outros caras pelados no local? Estou fora.

– Não, cara. É uma imagem por vez, em sequência, sem efeito de transição, com corte seco, câmera em close, mostrando apenas o órgão – me explicou.

– Na boa, Clarissa…

– Clarice…

– Ok, Clarice, beleza. Mas na boa, quem é que vai querer assistir um vídeo de uma sucessão de pirocas?

– Também vai ter mulheres no vídeo.

– Que tipo de música vai tocar no clipe? Funk?

– Não. MPB. Pesquisa meu nome aí e dá uma olhada nos meus vídeos no YouTube, beleza? Se tiver interesse, me avisa.

No dia marcado, cheguei duas horas antes do combinado, e Clarice, com cara de sono, trajando uma longa camisa do Motörhead, abriu a porta.

Me espreitou com um par de olhos verdes por entre os cabelos emaranhados, me deu as costas antes mesmo de eu pedir desculpas por tê-la acordado e dizer que tinha vindo para a filmagem, embrenhou-se no apartamento e retornou com uma garrafa térmica e duas xícaras.

Me disse, sem que eu perguntasse, que uma amiga em comum havia me recomendado mediante generosas lisonjas.

– Nunca tinha me dado conta que minha piroca é esteticamente aprazível – pensei alto e ela riu enquanto abria seu computador.

– Ouve aí.

A música, confesso, era bem ruinzinha, mas como não é de se estranhar, naquela altura dos fatos, minha mente poluída já havia sido povoada por obscenidades de tal monta, que fiquei na expectativa do momento em que deixaríamos de conversa e partiríamos para o fight, como nos filmes pornográficos de quinta categoria, sem roteiro, nem direção de arte.

Estava ela ali, trajando apenas uma camisa de algodão, quiçá sem calcinha, diante de mim, que havia ido até lá para ter minha piroca cinegrafada pela dita cuja.

Comê-la-ei, pensei.

Coloquei um cigarro na boca, e quando ela me viu tateando os bolsos em vão, avisou que ia pegar um isqueiro.

Tirei a roupa assim que ela sumiu e quando sua silhueta despontou no corredor vindo de volta, notei sua cara de assustada, como se olhasse através de mim.

– Não é o que parece, Gregório – falou com voz melíflua.

Olhei para a porta, e vi um sujeito com cara de paspalho olhando catatônico, com os olhos marejados e os lábios trêmulos, como que a esboçar alguma frase de desapontamento.

Foi embora batendo a porta atrás de si e Clarice, tentando se recompor, exclamou, “Meu ex”.

O telefone tocou e notei que era o paspalho do outro lado da linha, pois ela repetia seu nome quando queria interrompê-lo para então explicar o motivo pelo qual eu estava nu em sua sala.

Não tardou e o restante do pessoal que iria participar da filmagem começou a chegar, frustrando minhas pretensões libidinosas.

Não cheguei a ver o resultado final do vídeo, mas arrisco dizer que pela quantidade de pênis que ela filmou, deve ter ficado ruim pra caralho.

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