Quando a viatura reduziu a velocidade para que os portões se abrissem e adentrássemos as muralhas do presídio, não pude evitar que me viesse à mente uma das vezes em que cheguei à Paris e fui levado pelo motorista à Rue Vaneau.

Parou na esquina da Cité Vaneau, a noventa graus da rua onde supostamente nos hospedaríamos, depois de atravessar um corredor formado por bicicletas estacionadas de um lado e lambretas de outro, numa parte da cidade cuja arquitetura, embora tivesse certo charme burguês-parisiense, estava alguns quilômetros longe de meu pretendido destino.

– Mas que porra é essa? – Perguntei enquanto minha esposa Cláudia apertou minha perna e sussurrou “Calma, amor”.

– Eu pedi ao agente de viagem o hotel mais próximo à Avenue Anatole France, com vista para a Torre Eiffel, e você me traz para essa hospedaria de quinta categoria?

O motorista, que provavelmente não entendeu uma palavra que eu disse, mas pelo tom de minha voz deve ter interpretado que algo me desagradara, ficou repetindo “excusez moi” enquanto fazia a volta no quarteirão depois de a Cláudia ordenar: “Rue Anatole de France”.

– Calma, Edu. – disse minha esposa com os olhos verdes arregalados.

Os olhos de Cláudia sempre estavam arregalados e eu sempre achei isso seu maior charme, embora tenha gente que ache estranho.

No início de nosso relacionamento, dei a ela de presente uma bolsa Louis Vuitton só para me certificar se os seus olhos se abririam mais ainda ao receber a surpresa.

Lembro que ela sorriu e me agradeceu, mas os olhos, já constantemente arregalados, não se abriram mais que o habitual.

Não era Cláudia, com seus grandes olhos verdes, que estava do meu lado agora., mas um japonês, obviamente de olhos miúdos, escondidos atrás dos óculos escuros.

Meu descontentamento ao chegar ao presídio era maior que o daquele dia na terra de Balzac, mas diferentemente da data pretérita, eu não podia me insurgir.

– Aqui vai ser sua nova casa dulante os plóximos anos, doutor. – disse o japonês.

Os fotógrafos e cinegrafistas já não nos seguiam mais, uma vez que não podiam ultrapassar os muros da fortaleza, e talvez por isso eu não tenha me sentido desconfortável quando o japonês desceu e ordenou para que o seguisse até a sala onde eu faria o exame de corpo de delito.

– É plocedimento de lotina fazer exame de corpo de delito – disse o agente antes que o médico perguntasse se eu havia sofrido alguma lesão.

Assinei uns papéis e fui encaminhado para o pavilhão na companhia de dois agentes penitenciários, um dos quais portava uma arma longa e seguia alguns passos à nossa frente.

Me preparei para ouvir insultos e vaias ao cruzar os corredores, como nos filmes, mas foi até decepcionante cruzar por entre as celas vazias.

– Este pavilhão aqui é do pessoal da evasão de divisas. No final ficam as celas do pessoal do peculato e da corrupção passiva. Uma parte está no banho de sol e a outra está recebendo visita íntima – disse o agente.

Lembrei do Mersault, no livro de Albert Camus, questionando um agente o porquê de sua namorada não poder visitá-lo na cadeia.

– Se os presos pudessem se encontrar com mulheres na cadeia, onde estaria a punição? – indagou o agente de “O estrangeiro” e eu, ao me lembrar dessa passagem, fiquei um tanto quanto feliz pelo fato de está sendo preso no Brasil, não na Argélia.

Entramos noutro pavilhão e vários rostos se encostaram nas grades após ouvirem o som metálico do cadeado se abrindo.

– Bem-vindo, excelência – gritou um gaiato, despertando algumas risadas e outros o arremedaram ao longo do meu trajeto: “Bem-vindo, excelência”; “Pela ordem, senhor presidente”; “Vossa excelência me concede um aparte?”

Um mal cheiro de fezes, misturado com roupa suja, comida azeda e sabão em pó me entupiu as narinas, mas quanto mais eu entrava no corredor, mais me habituava ao fedor, convencendo a mim mesmo, ainda que não de forma consciente, que eu não tardaria a me integrar por completo àquela comunidade de encarcerados, onde vigora a lei do Capeta.

O inferno não podeira ser mais desagradável que isso, filosofei, enquanto já imaginava os termos da minha ulterior delação”, por meio da qual eu tentaria evitar a prisão da Cláudia, pois se ele for presa, não vou ter quem me visite nessa porra.

Paramos em frente a uma cela e, ao fazer menção de pegar as chaves, o carcereiro ordenou que todos saíssem de perto da grade, o que foi obedecido, haja vista o outro agente que nos acompanhava portar um excelente admoestador calibre .12.

– Chegou um novo integrante para a bancada – disse o agente me empurrando para dentro e fechando a grade nas minhas costas imediatamente.

O barulho de seus passos ainda não se distanciara por completo quando recebi um soco na boca do estômago que me tirou o fôlego. Consegui, sabe-se lá de onde, forças para gritar:

– Carcereiro! Não posso fic… – minha fala foi interrompida por uma chave no pescoço que me lançou ao chão, onde instintivamente fiquei em posição fetal, tentando proteger minha cabeça, mal conseguindo distinguir chutes e socos.

As agressões subitamente cessaram, e o algoz que possivelmente comandou meu espancamento surgiu entre os demais.

Com um misto de alívio e medo, vi o rosto sorridente do Zé Dirceu que, depois de acender um cigarro e colocá-lo na minha boca, falou:

– Bem-vindo à Papuda, Cunha.

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Joselito Müller é um personagem fictício que retrata as notícias do cotidiano. Numa classificação, seria um super-herói defensor dos… Defensor de nada, Joselito Muller é um personagem fictício que faz paródia de figuras públicas em situações cômicas. Nada é neste site é verdade, mas poderia ser. Além do charme, Joselito Müller é um competente jornalista, pioneiro no jornalismo de ficção brasileiro. Foi eleito três vezes consecutivas como um dos maiores filhos da puta da América Latina, além de ter sido indicado para o Pulitzer de reportagem mais escrota em 2013 e 2014.

1 COMMENT

  1. Muito interessante a matéria, mas quando enviarão o lula para a Papuda? diariamente mais um indiciamento, mais processo e nada deste Ex ir defrontar-se com o juíz, acho que estão demorando, para cair em : Exercício Findo e o sujeito ficar livre de todos processo e rindo dos acusadores; o renan calheiros “peitou” o ministro e disse: “daqui não saio” e não saiu!

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